Livre das dificuldades técnicas da fibra, iniciei meu trabalho de pintura. Depois de alguns anos de produção de pinturas em acrílico sobre tela, observando algumas dezenas de telas abstratas e figurativas que havia produzido, percebi ainda a forte influência da tecelagem nos meus trabalhos de pintura.
Voltei então minha atenção para o argumento, buscando um sentido para a evolução do trabalho. Nessa fase teve início o meu interesse pelas obras de outros artistas, pelos movimentos que antecederam a produção artística atual. A seriedade dos artistas concretos, neoconcretos e minimalistas com sua linguagem lógica e direta, atraiu a minha atenção, e foi então para mim inevitável mergulhar nesse universo.
O desafio de enfatizar o aspecto geométrico do trabalho, limpando a pintura de detalhes, foi grande. Trabalhando na contramão do que se definia pelo mercado como trabalho representativo de novos rumos da arte brasileira, encontrei nessa atividade durante alguns anos, um exercício precioso e solitário. Exercitar a simplicidade na forma de pequenas telas como fragmentos expandidos, e de uma série de telas brancas, me trouxe um domínio maior da técnica. O trabalho tornou-se mais primoroso, com maior qualidade de acabamento. Mas justamente por isso, a evolução dessa fase para a fase posterior, exigiu muito mais tempo, reflexões e desafios no processo, como se seguiu.
Depois de conquistar o branco, e suavizar o efeito das formas geométricas utilizadas, veio a necessidade de ao contrário, retomar alguns movimentos anteriores. Traço gestual e invasão de cores vivas que mantivessem um diálogo com o trabalho branco, foram metas para a produção da série de veleiros da exposição Bons Ventos. Também um empenho em repensar a intenção dos últimos trabalhos da fase 2, em que mesmo em meio a tantas informações e cores vivas, havia já o interesse por uma execução mais aperfeiçoada da técnica.
Gosto desse diálogo entre a passividade enganosa do trabalho abstrato concreto, e da atividade ilusória do traço gestual. A produção dos últimos três anos traz o resultado dessa experiência.
A relação entre pintura e escultura tornou-se mais afinada.
Reconheço uma maior individualidade no resultado dos trabalhos atuais. Embora o trabalho apresente sinais de influência da exigente ordem concreta, o uso dos traços com movimentos gestuais é visível em diversos trabalhos. Percebo que tenho trabalhado explorando o limite entre os dois universos, como se numa investigação eu buscasse um espaço de transição entre o gestual e o concreto.
Ana Cordeiro
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